A propósito de duas fake news do Expresso e do Observador: Não abrimos mão do direito à greve

Ao longo dos últimos seis meses, desde o primeiro pré-aviso de greve emitido pelos motoristas de matérias perigosas, que este sector laboral foi cercado e atacado nas mais variadas frentes. Levou seis meses até que aparecesse um jornalista nos meios de comunicação social de massas que se dedicasse a aprofundar as razões que estes trabalhadores colocaram no seu caderno reivindicativo, perdendo-se esta num emaranhado de notícias, boa parte delas falsas, cujo único objetivo era o isolamento deste sector em luta e, mais importante, a pretexto do combate a este conflito laboral, aprofundar e radicalizar o ataque à greve já em curso desde que o governo avançou com a polícia de choque para impor ilegalmente fura-greves a fazer o trabalho dos estivadores de Setúbal. Mão de ferro do governo que também se fez sentir na limitação do impacto das formas de luta dos enfermeiros e dos professores.

Apesar deste cerco, a verdade é que o desafio que a CASA lançou a várias organizações sindicais teve impacto na organização da defesa do direito à greve, e na primeira sondagem que se realizou para o efeito, a esmagadora maioria das pessoas mostrou-se solidária com a luta dos motoristas e apenas 9% se dizia favorável às posições patronais.

Entre as fake news antissindicais com que boa parte da comunicação social começou por abordar o tema surgiram dois artigos que o Expresso e o Observador publicaram, respetivamente, nos dias 23 e 24 de Agosto, que davam à estampa duas mentiras baseadas em fontes anónimas, afirmando o Expresso que os sindicatos independentes têm “tido reuniões sigilosas entre os vários sindicatos, duas a três vezes por semana” e adiantando que a sua fonte anónima “está a trabalhar na articulação entre as várias estruturas” ou que os sindicatos independentes estavam a considerar ações conjuntas “contra o Governo e contra a CGTP”.

Sendo A CASA uma associação de defesa dos direitos dos trabalhadores que integra diversos sindicalistas ligados a sindicatos independentes dos sectores citados nas referidas “notícias” – estivadores, trabalhadores de call-center, trabalhadores da Autoeuropa e do sector automóvel, entre outros – não podíamos deixar de repudiar e desmentir tais afirmações que só podem ter origem numa fonte mal intencionada, que apenas pode ser compreendida se baseada no intuito de desestabilizar o mundo sindical, os vários sectores profissionais em luta e, pior, dinamitar a importância do caminho que estes e outros sindicatos, que se colocaram contra o ataque ao direito à greve, podem e devem continuar a fazer juntos, fraternalmente e sem qualquer sectarismo com qualquer outra força sindical que esteja no campo da defesa do direito à greve.

A CASA, os sindicalistas que a integram e outros membros que participaram neste processo e que subscreveram o Manifesto Sindical em defesa do direito à greve, limitaram a sua ação a essa resposta. Deixamos claro que essa articulação em defesa do direito à greve foi e continua a ser aquilo que nos move, separando claramente a condução sindical da greve dos motoristas da razão que nos levou a somar a nossa voz a todos os que entenderam ser importante sair em defesa do direito à greve, o que na nossa opinião teve pouco eco e solidariedade no conjunto do movimento sindical, que em parte se juntou à campanha contra os motoristas.

No alvo não estava nenhuma outra força sindical, mas apenas o combate à ação do governo na gestão deste conflito, já manifestado noutras greves.

Na nossa associação, tanto contamos com membros que são sócios, delegados sindicais e até dirigentes de sindicatos filiados nas centrais sindicais, como com outros que não o são, mas o apoio às reivindicações dos motoristas e, sobretudo, a defesa do direito à greve foi feita, pela nossa parte, independentemente do sindicato na linha da frente desta luta. Se o ataque fosse dirigido a sindicatos da CGTP ou a qualquer outro sindicato, teríamos feito rigorosamente o mesmo, até porque em simultâneo à greve do SNMMP e do SIMM também havia um sindicato de motoristas da própria CGTP em greve, o STRUN.

Reivindicamos a ação que desenvolvemos e que aqui resumimos, importante do nosso ponto de vista para ajudar à criação de uma consciência de classe de que a greve é um dos pilares da nossa democracia e que não pode ser ferida por qualquer governo, sob qualquer pretexto, contra qualquer que seja o sindicato em luta. Porque sabemos que a ofensiva contra o sindicalismo, a liberdade sindical e os direitos dos trabalhadores não se iniciou com os motoristas e não terminará, infelizmente, com eles.

Este é um ataque concertado a todos os sindicatos que não estejam dispostos a abrir mão de lutar recorrendo a todas as possibilidades e a todas as ferramentas de condicionamento da produção, pelo que continuamos certos da pertinência e da justiça da campanha que lançámos em defesa do direito à greve e que queremos aprofundar com a organização de um grande encontro sindical aberto a todos os que se queiram juntar na defesa do direito à greve – que foi e continua a ser essencial para garantir a generalidade dos direitos que o movimento operário alcançou.

Lisboa, 18 de Setembro de 2019
A CASA – Associação de Defesa dos Direitos dos Trabalhadores