COMO CONTINUAMOS A RESVALAR PARA UM SISTEMA DE SAÚDE TOTALITÁRIO: O PONTO DE VISTA DE UM MÉDICO DE PROVINCIA.

EDITORIAL

Scandinavian Journal of Surgery

Órgão da Sociedade de Cirurgia Finlandesa – 2018
DOI: 10.1177/1457496918757579 journals.sagepub.com/home/sjs

 

Mesmo da minha relativamente abrigada e rural existência, algures nos Estados Unidos da América, eu consigo sentir e observar como o mundo da saúde à nossa volta (eu falo dos Estados Unidos, mas o mesmo se pode aplicar a outros países de igual forma) está progressivamente a resvalar para uma «forma totalitária capitalista». Vamos chamar a esta forma o «Sistema de Saúde Totalitário».

Obviamente, o sistema de saúde à nossa volta foi sempre grosseiramente capitalista e escravo do «todo-poderoso» dólar. No entanto, o antigo sistema, poderia ser descrito como de certa forma benigno e iluminado por um capitalismo conservador. Agora o sistema está a resvalar para outro modo de produção capitalista: o de um capitalismo duro, rígido, disciplinado, controlado e cruelmente conduzido por orientações totalitário-ditatoriais. Pense nos Estados Unidos no final da década de 1990. Agora pense sobre a China de hoje. Está a perceber a ideia?

Neste sistema emergente, nós os médicos, o motor que faz mover a máquina médica, não temos nada a dizer. Fomos reduzidos a peões. E claro os doentes, para quem a máquina actual existe, também não têm muito a dizer e serão sempre peões. Eles foram sempre levados como um rebanho até à água e ignorantes, compram a propaganda que lhes diz que «este é o melhor sistema médico do mundo». Os saudáveis (que pela selecção natural estão um pouco melhor informados) percebem, eles ainda o conseguem fazer, que o dinheiro compra os melhores cuidados. Isto se estiverem informados e saudáveis.

A deriva para uma medicina totalitária foi lenta e gradual. E assim os peões, os escravos da indústria médica, ou não conseguem sentir isto para se oporem à mudança, ou preferem simplesmente ignorar e dizer «O que podemos fazer? Não temos escolha».

Mas se tu olhares cuidadosamente à tua volta, no teu próprio ambiente, com o a tua vizinhança, se falares com os teus colegas, se questionares os teus doentes, se seguires a comunicação social, se tu parares um pouco e conseguires ver além da desejada folha de pagamentos no fim do mês, do teu salário, do brilho dos registos médicos electrónicos e se tentares ignorar a barreira da propaganda produzida pelos teus patrões, então aperceber-te-ás da mudança de que estou a falar.

E aqui vão de seguida e brevemente os principais componentes do nosso «Sistema de Saúde Totalitário». Brevemente, porque mesmo que cada item desse para fazer um grosso volume, eu penso que a vossa atenção é limitada e apenas, alguns poucos, se darão ao trabalho de ler este texto até ao fim.

 

HOSPITAIS

Os hospitais tornaram-se monstros, monstros industriais, crescendo cada vez mais e expandindo o seu poder de fusão em fusão. Termos como «não-lucrativo» perderam todo o sentido. O lucro é a palavra de ordem.

Dirigidos por exércitos de administradores, gerentes e hordas de parasitas não-médicos, com uma miríade de títulos ridículos estampados nos seus cartões de identidade, a verdade é que hospitais funcionam como as gigantescas fábricas da China embora com menos eficiência. De facto a pirâmide hospitalar está agora invertida. O pessoal de apoio supera em muito aqueles que entram em contacto com os doentes. Em muitos hospitais pequenos, chegam a existir no dia-a-dia, mais administradores que pacientes. Num serviço de apoio à alegada excelência, agora promovida a religião oficial. Somos os melhores, somos um centro de excelência, temos os melhores médicos, os melhores aparelhos, somos os líderes nacionais. E esta mensagem optimista (à moda do optimismo forçado da Rússia Soviética nos anos 20) é papagueada por mestres treinados de propaganda – olhem para o tamanho dos departamentos de Relações Públicas mesmo em hospitais pequenos. Grossas brochuras enviadas por correio, jornais de circulação interna coloridos mesmo em pequenos hospitais, fotografias de grupo de enfermeiras sorridentes e satisfeitas, cartas de doentes extremamente agradecidos e notícias de caixa alta glorificando o novo vice-presidente financeiro ou difundindo o discurso do novo director comercial proferido no encontro nacional dos administradores hospitalares. Como na Coreia do Norte. Os médicos têm um papel menor, se é que têm algum na condução do hospital. Desculpem, o nome de doutor tornou-se um equívoco. Os médicos agora são provedores (ver abaixo). São empregados contratados e demitidos. Contratados pelo seu valor monetário para o sistema. O enfase está agora posto na contratação, um processo do qual, uma miríade de agências de recrutamento beneficia. Uma vez recrutados e presos ao contrato o enfase na retenção deixa de existir. Se eles não «produzem», se estão fora das linhas de propaganda então tornam-se inúteis. Deixem-nos ir.

No há lugar para ataques. Não está contente com o que vê, vê problemas, você quer abertamente discutir áreas disfuncionais ou más práticas, então a curto prazo será sinalizado como um «criador de problemas». Um inimigo do sistema. O seu destino será tratado à porta fechada. O processo que lhe será levantado será rápido e unilateral. É fácil fabricar acusações contra si. O doutor foi agressivo, você não se queixou da gestão? A enfermeira chefe ouviu-o vociferando na sala da urgência. Não disse uma piada sexista no bloco operatório? É que isso foi reportado. As assistentes da administração que rondam, nos seus passos saltitantes, à volta do hospital têm muitas vezes a tarefa de activamente recolher informação (denúncias) contra si. Um dia poderão ser uteis.

E quando eles decidem ver-se livres de você, não vai ter muitas hipóteses. Dizem sempre a mesma coisa. Ou renuncia ou teremos que demiti-lo imediatamente e claro reportar o caso ao Registo Nacional de Dados Profissionais. Quem quer ficar com uma mancha permanente no seu registo profissional? Quem vai entrar num processo judicial caro e lutar contra o poderoso hospital? É melhor assinar a demissão, procurar outro trabalho e seguir em frente. Fazendo isto você assina um termo secreto comprometendo-se a nunca divulgar porque saiu e a não revelar os problemas que observou. Então depois de assinar talvez lhe paguem três meses de salário. Isto se forem generosos.

O papel dos denunciantes, nos hospitais de hoje, é muito semelhante ao dos bombistas suicidas. Se desejar denunciar alguma conduta inadequada, seja de má prática ou de corrupção não tem qualquer hipótese de sobreviver. Nos dias que correm a maioria dos hospitais pedem a assinatura de um compromisso de «não divulgação», onde o funcionário concorda em não revelar ou discutir qualquer assunto relativo ao hospital fora das quatro paredes do hospital. Qualquer questão, qualquer assunto deve ser apresentada à administração. Na maioria dos casos para ser ignorado.

O secretismo foi sempre uma arma crucial dos regimes totalitários. É assim que eles dominam as massas.

 

COMPANHIAS DE SEGUROS E FACTURAÇÃO

As companhias de seguros são essenciais no «Sistema de Saúde Totalitário». Em alguns lugares estas companhias pertencem ou cooperam com os grupos hospitalares e partilham os lucros. Em conjunto conluiam-se para enriquecer os seus directores executivos e os accionistas. Mais uma vez a regra do jogo é facturar mais e pagar menos, confundir, esconder e enganar tanto os doentes quanto os peões.

O sistema de preços dos hospitais é absolutamente opaco. Eles simplesmente facturam como lhes apetece. Assim por exemplo, um hospital num estado pode facturar 50.000 dólares por uma cirurgia com endoprotese enquanto outro pode cobrar pelo mesmo procedimento 15.000 dólares. Porquê? Porque eles podem. Nenhuma explicação é dada.

Alguém que procure um serviço hospitalar e seja suficientemente erudito para examinar a factura detalhada (é preciso implorar pela lista detalhada) não deixará de notar tentativas múltiplas e habituais de facturar mais em tudo e mais alguma coisa. Se reclamar, primeiro é ignorado. Se persistir, escrever, telefonar e voltar a escrever pode ser que diminuam a conta. Mas nunca admitem o erro, nunca pedem desculpa. Lembrem-se. Um sistema ditatorial nunca pede desculpa.

O mesmo se passa com as companhias de seguros. A sua regra principal é «primeiro negar». A seguir encontrar razões para não pagar ou pagar o mínimo. A sua palavra de ordem é «facturem o mais que puderem». Os registos médicos electrónicos são uma ferramenta que permite uma constante fraude na facturação que prevalece em todo o país e é encorajado pelo «Sistema de Saúde Totalitário». O «copy paste» de textos preparados de forma a documentar a complexidade do caso e assim aumentar o nível de facturação é um fenómeno omnipresente, uma fraude. Também aqui o segredo é um factor chave. Como numa máfia.

 

PROVEDORES

Sim, é verdade. Nós os médicos tornamo-nos os provedores. Em muitos lugares os nossos serviços são praticados ou duplicados por provedores aliados: enfermeiras práticas/assistentes médicos. Isto obviamente beneficia o «Sistema de Saúde Totalitário». Em primeiro lugar os provedores aliados são muito mais baratos, segundo são menos confiantes e tendem a pedir extensas investigações (óptimas para o sistema) e por último são mais fáceis de disciplinar e pôr na ordem.

Isto não é novo. Os sistemas totalitários emergentes começam sempre por eliminar a elite. Pessoas que são capazes de pensar livremente são percebidas como inimigos. Cortem-lhes as asas. Nestes sistemas só existe uma classe alta, a dos ditadores e seus apaniguados. O resto são insignificantes que devem sentir medo constantemente.

A experiência e antiguidade perderam toda a importância. É um especialista com 30 anos de serviço? Isso não significa nada para o «Sistema de Saúde Totalitário». O médico que acabou agora a especialidade é claramente mais valorizado pelo sistema. Opera tudo que o outro trata de forma conservadora e sem cirurgia. E concorda sempre connosco.

 

OLHANDO OS MÉDICOS DE HOJE VEJO SEMPRE DOIS GRUPOS.

A nova geração de doutores nunca conheceu melhores tempos. Eles, as crianças dos Nintendo, cresceram num ambiente politicamente correcto e voltado para o sucesso. Eles sabem como ter sucesso no «Sistema de Saúde Totalitário» (não conheceram outro): obedecem às regras, espalham felicidade e são muito úteis. Estão habituados a ser constantemente monitorizados pelo «big brother». Não se importam de ser avaliados e classificados por defeituosos e enviesados sistemas comerciais dispendiosos e contraproducentes destinados a mostrar o que os pacientes pensam deles. Lembrem-se que para as crianças nascidas depois da Revolução Russa a vida no estalinismo era a norma… espiavam até os seus progenitores.

Treinados em turnos de 8 ou 12 horas, não compreendem a importância da continuidade de cuidados. Para eles a medicina (cirurgia) é apenas um emprego. Qualidade de vida: dinheiro e tempo livre, é o que interessa. A lealdade aos seus pares é mínima. A rotação muito elevada: Ah, ofereceram-me mais 25.000 no Texas. Adeus, passem bem. Obviamente esta geração «tecnologicamente avançada e intelectualmente desafiante» vive em confortável simbiose com o «Sistema de Saúde Totalitário». Sabem como satisfazer os chefes, por exemplo adoptando uma tecnologia se esta vai favorecer os seus orçamentos.

 

A VELHA GERAÇÃO

Não é preciso explicar muito uma vez que os nossos leitores serão velhos cromos (os novos não perdem tempo a ler). Vocês sabem como se sentem. Alguns estarão mesmo tão desgostosos que só pensam na reforma antecipada. Muitos colocaram umas palas (como os velhos burros de carga): aprenderam a cavalgar através dos Registos Médicos Electrónicos na moda (os softwares mudam conforme os caprichos dos chefes) e seguem em frente. Queimando os últimos cartuchos antes da reforma. Afinal a maioria de nós não atingiu o topo da carreira (ou seja receita bruta maior que 450.000 por ano).

E como habitualmente, há os médicos que subiram tornando-se comissários políticos do «Sistema de Saúde Totalitário». Todos conhecemos esses tipos: uma vez que lhes é permitido sentarem-se nas mesas das conferências, estar a par dos segredos do sistema, ficam encantados por passarem a ser seus colaboradores e esquecem-se dos interesses dos seus velhos amigos. O poder e a sensação de importância são viciantes para alguns. Afinal não é melhor ir comer à mão dos oligarcas do que sofrer com a plebe?

 

A ACADEMIA

A era das grandes academias de mestres da medicina chegou ao fim. Os reputados educadores e grandes clínicos, que dirigiam os seus departamentos de torres de marfim, foram gradualmente sendo substituídos por doutores-gerentes contratados e substituídos pelo «Sistema de Saúde Totalitário» na base dos seus perfis e competências de direcção de serviços lucrativos. As tradições estão a morrer.

O mesmo acontece com os jornais académicos. Diluídos entre numerosas e obscuras publicações online (a maioria sem sequer tem uma revisão por pares ou a revisão não passa de uma piada) o respeito pela palavra escrita também está em declínio. Até os velhos e prestigiados jornais médicos estão em declínio. Não existem mais grandes editores como o antigo Claude Organ (Archives of Surgery) ou John Farndon (British Journal of Surgery). Em vez disso temos uns multifunções intrometidos que coleccionam posições em painéis editoriais, como medalhas no peito dos generais duma república das bananas. O padrão dos manuscritos submetidos a publicações de boa reputação é chocante, ilegível e provavelmente não credível. O que vemos noutros lugares, muito do que está a ser publicado em medicina, pode não passar de notícias falsas ou tendenciosas. Não podemos acreditar em nada. Não sabemos destrinçar o que foi falsificado ou manipulado pela indústria patrocinadora das pseudo-investigações e o que é real. O dólar e o «Sistema de Saúde Totalitário» controlam a informação.

 

OS PARASITAS

Exércitos de parasitas suportam o monstro. Cada corte de serviços nasce de uma enorme quantidade de dinheiro desperdiçado em «cuidados de saúde». Um exemplo: consultores de gestão andam, um pouco por todo o lado, aconselhando os hospitais sobre a forma de serem mais eficientes (ou seja mais impiedosamente totalitários). Dois dias de visita, algumas pequenas entrevistas, os «powerpoint» do costume usados numa breve apresentação com recomendações banais (queimar, contratar e consolidar) – 50.000 dólares desperdiçados pelo director executivo que poucos meses depois deixa o hospital esfrangalhado e parte rumo a outro hospital a «liderar e salvar».

Agências externas de recursos humanos assumem funções administrativas de tipo controle remoto. Os ditadores preferem terceirizar, recorrendo ao «outsourcing». É mais seguro para eles contratar missionários ao invés de usar os seus próprios soldados, não é verdade?

Numerosos fornecedores e agências de recrutamento controlam as movimentações e mudanças de quem quer que seja. Querem um cirurgião para o fim-de-semana? Pois muito bem, pagam 1500 dólares por dia e 500 vão para a nossa agência.

Não precisamos de nos debruçar sobre o Golias, o complexo médico-industrial. Todos sabemos como ele funciona.

E assim o «Sistema de Saúde Totalitário» transformou-se no maior desperdício do mundo que aumenta de ano para ano. O que significa que é um desperdício para a sociedade e para o povo. Mas não para os ditadores e oligarcas que o dirigem.

 

DOENTES/QUALIDADE DOS CUIDADOS

Doentes: Quem cuida de vós? 20 milhões sem seguro de saúde? Em breve serão 50 milhões. Quem cuida de vós? Eles só pensam em revogar o falhado Obama Care.

E quem cuida da real qualidade dos cuidados de saúde (da verdadeira) a que se esconde detrás da falsa propaganda que prevalece? Mas se tu cuidas e tratas dos doentes, se olhas à tua volta e falas com eles não deixarás de notar o declínio: a ausência de liderança, a fragmentação e o caos mascarados pela pose pretensiosa da excelência. Está doente? O seu provedor não está disponível. Vai para a Urgência, vai ser sujeito a imensos exames e depois enviam-no para uma sala isolada onde será tratado por uma equipe sempre em mudança de «hospitalistas» que trabalham por turnos. Terá alta antes do tempo (conforme decidido por uma enfermeira da administração ali de passagem). No dia seguinte será visto pelo seu provedor habitual que não saberá o que se passou consigo e o enviará de novo à Urgência… e toca a andar. Eis a moderna medicina de ponta.

Isto pode parecer-lhe superficial, louco, subversivo, exagerado e excessivamente sombrio. Talvez tenha exagerado um pouco. E claro, fora disto permanecem ilhas e reservas de boas práticas médicas. Todos conhecemos cirurgiões, médicos e até administradores (e hospitais também) que mantêm a luz brilhando contra o céu obscurecido.

Além disso, para muitos de nós é difícil dar conta do declínio quando ainda trabalhamos relativamente bem e a bolsa de valores ainda nos continua a sorrir.

Mas esperem mais uns anos.

Quando a nossa própria geração entrar na fileira da população de doentes idosos. Assustador não?

Alguém poderá perguntar: Qual a razão de criticar e reclamar sem sugerir um remédio? No meu entender não existe um remédio para o sistema. Nenhum método paliativo pode erradicar o cancro. Só uma ressecação total: Substituir este sistema, por um outro de pagamento único que funcione. Mas isto é um desejo meu. Isso nunca vai acontecer neste país. O «Sistema de Saúde Totalitário» e os seus amigos são demasiado fortes.

 

Um cirurgião geral
(Não vou assinar estas linhas. Ainda preciso do meu emprego por mais alguns anos)
O tradutor para português também não assina a tradução porque se encontra nas mesmas condições que o colega autor do artigo.