Da «deriva gestionária» à avaliação individual de desempenho

O mundo do trabalho sofreu profundas transformações nas últimas décadas. Múltiplas vertentes foram afectadas por essas mudanças, nomeadamente os processos de avaliação e de controlo dos trabalhadores. Na origem destas alterações estão, entre outras, a ideologia neoliberal e o progresso tecnológico digital. O neoliberalismo, enquanto ideologia assente num conjunto de crenças que valorizam o individualismo, a meritocracia, a desregulação, a competição e a iniciativa privada, estendeu-se rapidamente do campo político e da economia à esfera das relações sociais invadindo muitos aspectos da vida quotidiana. O progresso tecnológico, por outro lado, permitiu atingir um nível de controlo sobre os indivíduosque seria impensável há algumas décadas atrás.

Não é raro encontrar hoje empresas onde o patrão se arroga no direito de controlar os movimentos dos seus trabalhadores, no local de trabalho, através de um «chip» colocado no cartão de identificação que estes são obrigados a transportar consigo, que utilize a georreferenciação nas deslocações no exterior ou recorra à videovigilância. Generalizada está também a utilização da informática e do terminal de computador, que tudo controla funcionando como uma «caixa negra» de avião, onde o trabalhador é obrigado a introduzir dados relativos ao seu trabalho, assegurando o rastreio das suas actividades ao minuto. O registo força o autocontrolo e coloca uma pressão psicológica acrescida sobre o trabalhador. A dominação não tem, de facto, deixado de crescer em quase todos os sectores.

As implicações destas novas condicionantes do trabalho têm sido objecto de análise por muitos estudiosos, nomeadamente porChristophe Dejourse pela escola da Psicodinâmica do Trabalho. Segundo estes a «deriva gestionária», que se vem intensificando desde os anos oitenta e actualmente invade quase tudo, foi outra das grandes modificações. Ela substituiu os velhos contramestres e o poder dos mais antigos e experientes na cadeia hierárquica por batalhões de gestoresque desconhecem quase em absoluto a materialidade do trabalho. Com eles deixou de ser possível discutir dificuldades técnicas, contratempos, aspectos relativos à qualidade, ao saber fazer ou colocar questões relativas à própria natureza do trabalho como se fazia com as antigas hierarquias. As negociações tornaram-se também quase impossíveis, porque é impossível discutir com quem nada sabe sobre um assunto.

Nestas circunstâncias, a única avaliaçãoque se impôs de uma forma hegemónica foi a individualizada, que se baseia na suposta análise e quantificação do desempenho, em objectivos contratualizados e mensuráveis e em números, a única realidade que os gestores conhecem. Grelhas, objectivos e números, alimentados e passados a pente fino pelos computadores, são o que realmente passou a contar. Mas esta avaliação individualizadamudou também as relações entre as pessoas. A concorrência entre empresas, departamentos e serviços estendeu-se, através da avaliação individualizada, aos próprios trabalhadores. O êxito de um pode ser a penalização do outro, como acontece com o sistema de quotas do SIADAP, o sistema de avaliação dos funcionários públicos portugueses. E se a avaliação não é boa, pode sempre acontecer uma penalização ou uma sanção, e no limite o despedimento, o que constitui uma ameaça discricionária que paira sobre todos.

Não é por acaso que no SIADAP a contratualização se faz entre avaliador e trabalhador, que os critérios são obscuros, as classificações secretas e todo o processo escapa ao escrutínio público. Neste género de avaliações, o trabalhador fica irremediavelmente isolado diante de um gestor que ignora muito do seu trabalho e com o qual apenas pode discutir objectivos, resultados e números. São no fundo processos que favorecem a individualização, a solidão e medo nos locais de trabalho,quebrando o funcionamento colectivo das equipas, promovendo a hostilidade nas relações laborais, atomizando os trabalhadores e criando mais problemas do que aqueles que pretendem resolver.

A «deriva gestionária» promoveu também a degradação da qualidade do trabalho. Na avaliação individualizada e quantitativa, o que passou a contar é o número de actos praticados, não a qualidade da sua execução. Pouco importa a complexidade do trabalho e a morosidade que exige, seja de um processo judicial mais difícil, de um doente mais complicado, de um aluno com maiores dificuldades ou de um veículo em que teve de repetir um teste de segurança. O que conta é o número de sentenças produzidas, de doentes consultados, de alunos acompanhados e de veículos inspecionados. Apenas interessa à avaliação o resultado, ignorando todo o processo de trabalho que conduz a esse mesmo resultado. A avaliação quantitativa visa a medição da quantidade, não a qualidade. Não é por acaso que a qualidade de muitos serviços públicos se degradou e que estes se desumanizaram acentuadamente.

Muitas situações criadas pela pressão dos objectivos acabam por chocar com os princípios morais, com o empenho e brio profissional dos trabalhadores. Nestas circunstâncias, instala-se um sofrimento ético, resultante da obrigação de fazer coisas que vão contra aquilo que a sua consciência tem por justo e desejável. Ao mesmo tempo que a pressão dos números obriga os funcionários a despacharem-se e a despachar, baixando a qualidade do seu trabalho, introduz também neles o sofrimento psicológico.

Nem o mundo sindicalescapou a estas alterações que atomizaram o mundo do trabalho e destruíram o sentimento de pertença a uma comunidade. Hoje os sindicatos lutam mais com juristas ao seu lado nas negociações, do que com trabalhadores em protesto nos locais de trabalho e nas ruas.

Inverter este estado de coisas passará entre outras coisas, pela tomada de consciência dos mecanismos que estão em jogo e pela luta contra os seus efeitos, nomeadamente a luta contra este modelo de avaliação destruidor. Assim como pelo pensar de novas formas organizativas capazes de devolver a solidariedade plena e a cooperação ao mundo do trabalho.

José António Antunes

Esta reflexão foi escrita tendo por base as ideias expressas por Cristophe Dejours numa entrevista que pode ser escutada aqui:

http://www.franceculture.fr/player/export-reecouter?content=4769410