Intervenção n’A CASA 24 de Fevereiro 2018

No âmbito do 8 de Março, a Assembleia Feminista de Lisboa subscreve ao apelo de uma Greve Internacional de Mulheres.

No final do século XIX a luta das mulheres ganhava força a um nível internacional, em particular nos EUA e na Europa, pelo direito ao voto. A luta é incorporada pelas mulheres socialistas e, em 1919, na II Conferência Internacional das Mulheres Trabalhadoras (Dinamarca) Clara Zetkin propõe que todas as trabalhadoras do mundo sigam o exemplo das americanas e se unam no dia da mulher pelo direito ao voto sob o slogan “o voto para as mulheres vai unificar as nossas forças na luta pelo socialismo”. O 1o dia internacional da mulher foi a 19 de março de 1911 reunindo cerca de 1 milhão de pessoas na Europa. A data passou a ser o 8 de março em 1913.

Em 1917, no dia 23 de fevereiro no calendário russo, 8 de março no resto do mundo, as mulheres de Petrogrado que se encontravam na miséria devido à guerra saem às ruas numa grande manifestação. As costureiras e tecelãs fazem greve, contra o que tinha sido decidido no dia anterior pelo comité de tecelãs, e dirigem-se às outras fábricas apelando os companheiros a fazerem o mesmo. Estoira assim aquela que ficou conhecida como Revolução de Fevereiro. Mais tarde, em 1921, a Conferência das Mulheres Comunistas fixa o 8 de março como dia Internacional da Mulher.

Historicamente, o 8 de Março teve a sua origem na luta das mulheres marcando-se pela união e organização das trabalhadoras para travar o combate necessário à conquista de direitos e emancipação de todas. Só mais tarde o dia foi cooptado pelas instituições burguesas, sendo decretado dia Internacional da Mulher pela ONU em 1975 e pela UNESCO em 1977. O dia da mulher foi banalizado transformando-se num dia de comemoração, oferta de flores e workshops de maquiagem pelas empresas. É preciso resgatar o carácter classista e combativo que esteve na origem do 8 de Março e esse é o fenómeno que estamos a testemunhar com o movimento que se tem vindo a gerar com a Greve Internacional de Mulheres.

Em outubro de 2016, as polacas fazem greve e saem às ruas numa manifestação de massas naquela que ficou conhecida como segunda-feira negra. Num país onde a lei sobre o aborto é das mais restritas, sendo apenas permitido em algumas situações como no caso de malformação do feto ou gravidez decorrente de uma violação, o governo apresenta um projeto de lei que visava a criminalização total do aborto. A mobilização das mulheres provocou tão grande impacto que impediu que o governo avançasse. Poucos dias depois nasce o movimento Ni una menos na Argentina, inspiradas pelas companheiras na Polónia as mulheres fazem greve e saem às ruas num grito de revolta por Lúcia Perez, uma rapariga de 16 anos violada e brutalmente assassinada. O pico das mobilizações dá-se com a tomada de posse de Trump com milhares de pessoas em manifestação em várias cidades americanas na “Marcha de Mulheres contra Trump”. Por representar o machismo, a misoginia e o imperialismo no resto do mundo as mulheres saem à rua contra Trump, havendo também concentrações em Lisboa e no Porto. A união fez a força mas marcado por dois lados: pelas feministas liberais, apoiantes de Hillary Clinton, o Partido Democrata e ONG’s e, por outro lado, um feminismo militante com organizações de esquerda e sindicatos. O apelo é feito pela

Angela Davis, por uma luta anticapitalista e um feminismo dos 99%, que se faça uma Greve Internacional de Mulheres no 8 de Março.

Estas ativistas fazem a ligação entre a violência machista e o capitalismo chegando ao mundo do trabalho. Os governos têm que tomar medidas contra os agressores, pelo fim da impunidade e prisão efetiva dos agressores, é preciso proteger as mulheres da violência e isso só é possível se elas tiverem independência financeira para se libertarem. Por isso o mote da GIM é “se as nossas vidas não importam, produzam e reproduzam sem nós”. A greve também tem este significado, o de visibilizar o trabalho não pago que recai sobre as mulheres e que cumpre um papel de reprodução social da força de trabalho. A mulher trabalhadora tem uma dupla e tripla jornada quando chega a casa, após as 8 horas de trabalho, e garante as refeições da família, lava a roupa, limpa a casa, faz as compras e é quem cuida dos filhos e idosos a cargo. A mulher de classe média e burguesa tem a possibilidade de contratar alguém que cumpra essas tarefas, que na maioria das vezes é uma mulher, muitas vezes negra ou imigrante, com salário baixo e condições precárias. Essas tarefas são trabalho escravo que além de oprimir as mulheres e remetê-las para o lar, cumpre um papel de reprodução social do trabalho que servo ao capitalismo. No ano passado, em Portugal, por não ser possível uma greve laboral apelamos a esta forma de protesto fazendo greve às tarefas domésticas.

Em 2017, no dia da mulher houve grandes manifestações no mundo todo, 57 países subscreveram e por cá iniciou-se um novo período do movimento feminista. Fenómenos mediáticos como #metoo e #timesup já foram desencadeados por este contexto de luta das mulheres nas ruas. Em Portugal, ao longo do ano passado houve várias ações feministas no país. O caso da violação de uma rapariga na Queima das Fitas do Porto ou o polémico acórdão machista proferido pelo Juíz Neto de Moura levaram centenas de pessoas às ruas em várias cidades do país. A Assembleia Feminista de Lisboa tem participado ativamente nestas ações e procura ser um movimento amplo e combativo apelando sempre à unidade para as mobilizações. A AF esteve também solidária com a luta das trabalhadoras da ex-Triumph e reivindicámos que o governo se responsabilizasse com o destino daquelas mulheres. Os sectores onde trabalham maioritariamente mulheres são mais precários e nada é feito pelo governo. Nos últimos meses foram fechadas as fábricas da Triumph, Ricon e Cofaco enviando para o desemprego cerca de 1000 trabalhadoras.

Para este ano haverá manifestações em Lisboa, Coimbra, Setúbal, Braga e Porto que subscrevem à Greve Internacional de Mulheres no 8 de Março. A situação internacional é favorável com países onde haverá como é o caso da Espanha onde as centrais sindicais meteram pré-aviso de 24h a CTG e 2h a UGT. Por cá queremos construir um movimento unitário com as organizações de esquerda e sindicatos que assinalem o dia da mulher trabalhadora. É um processo em construção, com pouca força ainda, mas que conseguiu no último ano resgatar o carácter combativo do feminismo e da luta das mulheres trabalhadoras. O verdadeiro combate à violência machista deve ser feito contra o sistema que nos oprime. A vanguarda deste processo são as mulheres, e é importante que sejam, mas é uma luta de todos e todas contra o capitalismo.

Laura Veríssimo

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