O trabalho diário com e para os trabalhadores não basta. Há que mobilizar.

No dia 8 de Junho realizaram-se as eleições para a Comissão de Trabalhadores (CT) da Groundforce (empresa de handlinge assistência em terra dos aeroportos), bem como para as sub-CT do Porto, Funchal e Faro. Das cinco listas que concorreram, A CASA entrevistou dois dos candidatos da segunda lista mais votada a nível nacional e a mais votada no aeroporto do Porto, Carlos Pinto e José Luís, cabeças de lista da lista nacional e do Porto, respectivamente. A lista A SOS-CT elegeu três dos onze elementos que compõem o órgão a nível nacional e três dos cinco na sub-CT do Porto. O Carlos e o José Luís são ainda membros do SOS Handling, boletim dos aeroportos que participa n’A CASA.

Sabendo que o rácio de passageiros por trabalhador na Groundforce tem vindo a aumentar significativamente, quais as implicações desta situação e que medidas esta lista eleita propõe?

Carlos Pinto– Somos trabalhadores por turnos e sofremos ainda mais com esse aumento de trabalho, defendemos para tal as 35 horas como máximo de trabalho semanal, 4 dias consecutivos com duas folgas no mínimo por semana, acabando assim com as mono folgas. Isto implicará a contratação de mais trabalhadores o que resultará na melhoria do serviço para passageiros e turistas que actualmente está miserável.

José Luís– Além disso, entendemos que a prática desses horários e turnos, que o Carlos indica, aportará uma mais-valia à vida e saúde dos trabalhadores. Consequentemente, um trabalhador com melhor contexto laboral conseguirá um melhor equilíbrio familiar e social. Essa motivação da pessoa trabalhadora, resultará num evidente benefício no desempenho e rendimento laboral… Todos, empregador e empregado, saem a ganhar. Neste âmbito, temos travado batalhas internas no órgão que integramos, porque historicamente os horários das escalas fora da sede (Faro, Funchal e Porto) não eram considerados pela Comissão de Trabalhadores e nem sequer pelas Subcomissões. Lançámos o debate às Subcomissões do Funchal e Faro, que se uniram nessa exigência, fazendo questão que os pareceres sobre horários praticados em qualquer local onde a empresa opera se rejam por uma só regra de consideração, no cabal cumprimento do Acordo de Empresa em vigor.

Por que é que a desigualdade de salários entre trabalhadores e administradores tem vindo a aumentar? O que fazer perante esta situação?

José Luís– Chegámos a uma altura em que as empresas pagam muito a uns quantos que têm como principal missão fazer com que muitos ganhem pouco! Uma situação que deveria envergonhar qualquer sociedade. Na minha opinião, as últimas decisões políticas no país não têm de todo protegido os trabalhadores. Aliás, com a aliança de Partidos de Esquerda que nos tem governado há uma tendência para a fotografia, para a aparência, como o anunciar medidas como o aumento do salário mínimo, mas que na prática nem o chega a ser, porque se continua a promover e permitir todo um subsistema de contratação precária, que afinal apenas retira os cidadãos das listas do desemprego, ou mesmo os condiciona aos apoios sociais! Paralelamente continua a promíscua dança de tachos entre a classe política (ou políticos sem classe), que se reveza com o sector empresarial, por vezes também de aparente prestígio, porque afinal apenas resultam do lóbi na Banca. Os elementos eleitos pela nossa lista, bem como a maioria no Porto, têm tido voz activa desde o primeiro dia em funções, deixando bem claro que reprovamos o recurso constante à sub-contratação, reiteradamente de forma precária e sem respeito pelos trabalhadores enquanto seres humanos. Temos feito apelo directo à empresa e aos trabalhadores, por comunicados, onde assumimos reprovar essas políticas, que por um lado contratam pelo custo mínimo na medida que contratam por tempo parcial de umas horas, mas pretende rentabilizar esses mesmos trabalhadores sub-contratados, na medida que usa duma amplitude horária máxima que os inibe de compatibilizar este trabalho com outro part timeou mesmo estudo, e sem contemplar coisas básicas como a tomada de refeição em hora adequada. Esta prática vai fazendo destes trabalhadores quase reféns, pois a sua situação vulnerável leva-os a ceder aos caprichos do patrão, como seja a prestação de trabalho suplementar para além do referido contrato precário e a tempo parcial. Entendemos que a nossa actuação, não apenas protege e defende os trabalhadores, como também tem um carácter preventivo relativamente à empresa. A Comissão de Trabalhadores, enquanto órgão de controlo de gestão faz questão de dar alertas à empresa, indicando que esse não está de todo a ser o melhor caminho!

Carlos Pinto– O capitalismo, sistema político e económico vigente na nossa sociedade, gosta de premiar os seus aliados. Cria sectores mais bem pagos e convencidos (ensinados) pela sua ideologia como forma de perdurar no tempo e acautelar a estabilidade social.

Qual o papel da CT na defesa dos trabalhadores? Que necessidades veio suprir, uma vez que existem sindicatos?

José Luís– Entendo o papel das Comissões de Trabalhadores como umsindicalismo de missão. Um activismo pela convicção, e um combate pela causa; que não depende ou imana duma quota paga pelo associado, como acontece no conceito sindical actual, que afinal lhe sucedeu. Sendo resultado de um escrutínio, as Comissões de Trabalhadores podem tender a  ser o resultado de um público pouco mobilizado, sem esperança e pouco exigente. No entanto, já é evidente que os trabalhadores sentiram na nossa campanha uma proposta alternativa e muito diferente da do padrão. Essa mensagem, mesmo não chegando a fazer resultado de maioria no voto, fez mobilização de consciências, na medida em que têm sido muito diversificados os assuntos que nos chegam por parte dos trabalhadores, inclusive, por pares eleitos que nos reconhecem uma actuação mais adequada, nalgumas matérias. Se virmos por essa perspectiva, e respeitando a liberdade e competências das Organizações Representativas dos Trabalhadores, o papel da CT pode ser quase tudo o que tenha a ver com o trabalhador, manutenção e respeito pelos seus direitos.

Carlos Pinto– As CT muitas vezes são vistas como “as filhas pobres” do sindicalismo. Não é bem assim. São órgãos de fiscalização das empresas mas são também grupos políticos que podem e devem ter intervenção política, como outro grupo qualquer. Normalmente isso chateia os sindicalistas dos sindicatos pois em determinadas empresas com mais tradição acabam por ter mais peso que os sindicatos e isso mexe com as alianças do status quodo sindicalismo tradicional. É portanto ainda mais desafiante!

Tendo em conta o vosso último mandato, o que vão manter e o que vão fazer de diferente?

Carlos Pinto– Este mandato será completamente diferente. A lista tradicional afecta ao PCP perdeu a maioria nacional e nas escalas, nós por outro lado ganhámos no Porto o que nos dá outra responsabilidade. Portanto a orquestra vai ter novos músicos. Inclusive a eleição do Zé Luís, pela primeira vez alguém de outra escala (Porto), será uma mais-valia para os trabalhadores da Groundforce a nível nacional e em particular do Porto.

José Luís– Sou debutante nestas práticas instituídas! A nível particular, sempre me assumi como activista, mas de certo será muito mais enriquecedor e útil nestes moldes. Estou no entanto consciente, que a inércia ou mesmo erros do passado que eu próprio identifiquei, noutros elementos eleitos, não vão de forma alguma ser repetidos, e essa ideia é comum a todos os elementos eleitos pela nossa lista.

Como se desenvolverá a actividade desta CT constituída por várias listas eleitas?

Carlos Pinto– A CT é um órgão colegial, funciona como um pequeno parlamento. A lista mais votada teve 5 elementos, nós 3 e outras duas 2 e 1. A partir daqui logo veremos. Quanto a nós votaremos consoante o nosso programa, os outros não sei.

José Luís– É isso… e um pouco de paciência para explicar e combater com alguns elementos eleitos por outras listas, que a Comissão de Trabalhadores só faz sentido ao serviço dos mesmos. Não pode estar ao serviço do interesse do patrão ou mesmo de outros interesses.

Quais as principais propostas da vossa lista?

Carlos Pinto– A proposta central da nossa campanha foi a reivindicação da nossa profissão, pelas características que tem de trabalho por turnos, stress e risco físico como uma profissão de desgaste rápido.

José Luís– Temos ainda programada um combate à precariedade laboral, e nesta precariedade também podemos incluir a gestão que tem vindo a ser feita dos nossos trabalhadores. Entrámos nesta causa pela defesa dos trabalhadores, por eles fomos apoiados e eleitos, mas principalmente batalharemos para que todos os trabalhadores se revejam na nossa actuação!

O nosso lema de campanha foi “Porque queremos o mesmo que tu, viver mais e melhor…”. E, por isso vamos trabalhar!

Se fossem vocês, trabalhadores, a gerir o aeroporto, o que mudariam?

Carlos Pinto– Primeiro, sem dúvida, tornávamos a Groundforce de novo estatal, como há 15 anos. Bem como a TAP e a ANA. Só isso era um óptimo acto de gestão pois todos os lucros milionários que essas empresas todas estão a dar, como é público, revertia agora para o Estado e a sociedade.

José Luís– Sem esquecer o serviço de utilidade pública, que pelos privados tem vindo a ser descurado, e no geral as condições de trabalho, para quem labora. Essas seriam sem dúvida, mudanças que se impunham! Mas, sendo que a gestão dos aeroportos a das empresas que neles operam não nos está entregue, temos pelo menos o papel de fazer o que está instituído no âmbito da Comissão de Trabalhadores, que pode passar pela exigência de condições dignas e adequadas, nos espaços e infra-estruturas partilhados por várias empresas.

Pessoalmente o que te levou a concorrer à CT, em vez de ficares em casa ou no facebook?

José Luís– A minha principal motivação para abraçar esta causa foi precisamente a inércia e incompetência de uma maioria historicamente instalada…
Num pedido de acção que eu mesmo apresentei à anterior Comissão de Trabalhadores, senti que dois elementos se destacavam pela forma assertiva, combativa e entrega às causas… Reconheci no Carlos Pinto e no José Sá, capacidades e qualidades muito particulares, que me inspiraram a intentar fazer mudança!  Acrescento ainda que pessoalmente ainda continuei em casa e a entrar no facebook, em proporções adequadas e alguma disciplina tudo vai sendo possível, e assim pretendo continuar. Pretendo fazer parte de um órgão vivo, de trabalhadores e para trabalhadores. Afinal a“desburocratização dos sistemas” é um dos nossos combates!
Agradeço o interesse, e esta oportunidade de partilha de opinião.

Carlos Pinto– Estar onde as coisas acontecem e tentar alterar é outro desafio. Porque prefiro a realidade! E posso sempre fazer os meus postsno facebook!