Os seis pecados capitais da esquerda identitária pós-moderna.

Um artigo de Eric Fassin publicado no Libération do 6 de setembro de 2010 “Xenófobos, os franceses, não é assim tão certo Monsieur Sarkozy”, apelando à esquerda para se recompor perante a «xenofobia de Estado», dando mostras de audácia e de imaginação perante a campanha da direita, e rompendo com a sua culpada passividade anterior, perante ideias como «o limite de tolerância», oferece-nos a oportunidade de analisarmos como funciona a ideologia da esquerda identitária pós-moderna à qual pertence este sociólogo. Se à partida o seu texto expõe uma intenção generosa e numa abordagem simpática (acabar com a xenofobia de Estado, por muito vago que seja esse conceito), as suas conclusões políticas inscrevem-se no mais subserviente reformismo. Para ilustrar o nosso argumento, fomos ler outros textos do mesmo autor. Se alguma leitora ou leitor quiser comunicar-nos as suas reflexões para enriquecer este artigo (e encontrar um sétimo pecado capital…), estas serão bem-vindas.

 

O primeiro elemento comum a todos os identitários de esquerda é o apelo à compaixão, compaixão que é alvo de uma manipulação política.

Para a esquerda identitária pós-moderna, não se trata de apostar na revolta contra as injustiças, na vontade de deitar abaixo o sistema capitalista e destruir seus fundamentos, mas de um “sobressalto moral”, como escreve Eric Fassin, invocando as reacções do Papa e de alguns dirigentes da direita. Não, tem que se canalizar essa revolta até uma compaixão caridosa e “cidadã” a favor das “vítimas” das múltiplas “fobias” denunciadas por Fassin e seus amigos: xenofobia, islamofobia, judeofobia, homofobia, etc. As palavras acabadas em “ismo” (racismo, anti-semitismo, etc.) não ganham nada em ser transformadas em palavras acabadas em “fobia” porque passamos assim, sem nos darmos conta, do registo político ao registo psicológico, sendo a fobia mais um medo irracional, eterno, do que uma ideologia que se pode esmiuçar e desmontar, e contra a qual podemos combater colectivamente. A fobia faz parte, antes de mais, do imaginário individual, pessoal. Existe evidentemente uma dimensão psicológica associada a esses fenómenos mas a moda das “fobias” traduz bem mais uma capitulação perante a ideologia dominante que tende a psicologizar as questões e as relações sociais, mais do que afinar as análises políticas.

Mas esta escolha compassiva do pós-modernismo identitário de esquerda é lógica. Na continuidade dos movimentos do pós 68 que salientavam a libertação imediata dos desejos dos indivíduos contra todas as dominações, “a malta tornou-se efectivamente política”, mas de uma maneira inesperada e perfeitamente reaccionária. E a esquerda identitária pós-moderna caiu na armadilha, pensando romper com o dogmatismo marxista (portanto, bem real), com os velhos esquemas obsoletos da luta de classes, etc.

É essa a ideologia que inspira simultaneamente os reality shows e a comunicação política dos grandes partidos, tanto de esquerda como de direita, que encenam os problemas sociais apresentando-os como “individuais”: as mulheres maltratadas ou estupradas; as crianças martirizadas pelos seus pais; as esposas ou companheiras de homens que não as respeitam nem as sabem apreciar, ou que não assumem nenhuma tarefa doméstica, etc.; os imigrantes e seus filhos que sofrem discriminações, arriscam ser expulsos e vivem na angústia e na precariedade; os operários e as operárias despedidos que são expostos em palestras na televisão perante homens políticos paralisados; os sem domicílio fixo que não conseguem arranjar comida – até o nome “Restos du Coeur”[1] é significativo do muito cristão “A votre bon coeur Messieurs Dames”(Grato pela generosidade); de tudo isto até à política assistencialista de Martine Aubry, debatemo-nos em discursos humanitários consensuais e inofensivos para o sistema capitalista.

Os produtores de reality shows e os homens políticos de esquerda pregam, ambos, o “respeito” pelas “diferenças” e pelas “identidades”, sendo as identidades os inúmeros nichos que se têm que rentabilizar ao máximo, por motivos eleitorais ou comerciais.

A principal diferença entre os produtores de reality shows e os profissionais da comunicação política é que aqueles consideram que pertence à vítima a responsabilidade de tomar conta de si mesma (cf. O programa “Super Nanny” e a culpabilização dos pais) ou então esperar o gesto de um caridoso benfeitor ou vizinho bondoso (cf. “Les maçons du coeur” cujo título volta a glorificar as virtudes do famoso órgão fornecedor de compaixão).

Os partidários sociais-democratas da política assistencialista admoestam menos os pobres pelos seus comportamentos do que os apresentadores de televisão (embora a Segolène Royal ou o Manuel Valls sejam entusiásticos adeptos da política securitária e das casas de correcção para proletários selvagens); eles preferem louvar as coisas bem feitas do Estado Previdência ou a adesão a associações, a redes que visam difundir e mobilizar toda a compaixão necessária para “sacudir as coisas”… ou seja, claramente, colmatar penosamente as cada vez maiores brechas de miséria social e económica.

As vítimas prolongadas da miséria social ou psicológica confessam-se no pequeno ecrã; produzem-se programas de televisão e fabricam-se livros em tempo recorde à volta dos seus casos; circulam imagens chocantes (numa entrevista publicada no Libération, um participante da manifestação do 4 de setembro de 2010 contra a “xenofobia de Estado” conta ter decidido vir para a rua depois de ter visionado o vídeo de uma mulher Rom[2] grávida e maltratada pela polícia. Não se trata de menosprezar a indignação suscitada por esse facto ignóbil, mas de sublinhar o impacto da emoção, em detrimento do conhecimento – neste caso do conhecimento das politicas migratórias, que sempre foram hostis aos Rom, e às “pessoas itinerantes” francesas, bem antes da enésima viragem securitária do governo Sarkozy-Fillon exagerada pela esquerda moral).

Dentro do mesmo registo, o apelo “Não à política do cepo!” (eis mais uma metáfora da compaixão e da piedade pelas vítimas!) lançado pela Liga dos Direitos Humanos, mas recuperada e sustentada de maneira acrítica pela esquerda e pela extrema esquerda que expressava bem essa ideologia compassiva pelos “pobres” imigrantes “vítimas” da “xenofobia de Estado” e do “racismo”.

 

O segundo pilar da ideologia da esquerda identitária é a aproximação de todas as discriminações ao racismo e se for possível ao anti-semitismo genocidário[3], às práticas dos Estados fascistas ou para-fascistas, etc.

O antifascismo pós-moderno é, antes de tudo, compassivo, infrapolítico. Os campos de concentração, os campos de extermínio, a Gestapo, a Milícia, Hitler, Pinochet, Franco, Salazar, Videla, etc., são de facto “horríveis”, “ignóbeis”, “bárbaros”, “desumanos”, tudo aquilo que quiserem, mas não são só isso. A sua dominação, as suas ditaduras, não relevam apenas do uso político das pulsões de ódio e das frustrações sociais duma parte dos dominados, ou para utilizar um termo na moda entre os filósofos de esquerda e os psis, do “ressentimento” dos explorados. Têm uma função política e social, uma racionalidade económica, social e política que temos que destacar, se não queremos ficar confinados a explicações psicológicas ou “essencialistas” do tipo “é da natureza humana…”. E para isso, é preciso deixar o registo da indignação moral e da simples solidariedade sentimental com as vítimas. Mas a esquerda identitária não quer ver o vínculo entre fascismo, nazismo e capitalismo, tal como aliás não dispõe de instrumentos para compreender o estalinismo, em que uma das componentes essenciais sempre foi a defesa da identidade por detrás de um verniz pseudo internacionalista.

 

O terceiro credo da Esquerda identitária é o respeito pelas leis, pela Constituição e pela democracia burguesa.

É assim que Eric Fassin toma como exemplo as boas leis que souberam reprimir a homofobia e dar aos homossexuais o seu lugar na sociedade francesa. “É a lição do PACS: depois de Lionel Jospin ter acabado por assumir a lei vetada pela esquerda, foi Nicolas Sarkozy quem então, desde o verão de 1999, rejeitando as exageradas jogadas homofóbicas do seu campo, se comprometeu no terreno da tolerância para não o abandonar à esquerda. Os direitos dos homossexuais tornaram-se o cerne da disputa”. As suas considerações mostram bem que, ao contrário de todos os raciocínios na moda dos anos 70 e de certos argumentos feministas e libertários, ainda hoje, o combate à homofobia não ameaça radicalmente a dominação do Capital e do Estado (capitalismo, patriarcado e “hetero-normatividade” – isso é, dominação dos heterossexuais sobre os homossexuais, os trans-género, etc., ao impor normas, por exemplo – sendo supostamente indissociáveis). Que é um combate interclassista, e que, como todos os combates, beneficia sobretudo os burgueses e os pequenos burgueses homossexuais, e muito pouco os operários, os empregados e os trabalhadores imigrantes homossexuais vítimas de discriminação no trabalho e onde habitam.

Esse respeito pela legalidade burguesa, Fassin já o tinha exprimido, assinando, em 17 de dezembro de 2003, um texto sobre o hijab, com outros intelectuais, texto que proclamava “enquanto se recusar a dar aos descendentes dos povos que colonizou a igualdade prometida pela sua Constituição, pelas suas leis internas tanto como pelas suas obrigações internacionais, a França terá problemas”. Ou, na introdução a “A Inversão da questão homossexual”: “Sem dúvida concordamos todos em considerar que as escolhas económicas ou políticas relevam da negociação política. Mas terá que se considerar que as questões sexuais, sejam elas de género ou de orientação sexual, de casamento ou de família, de filiação ou de reprodução, escapam à deliberação democrática?”

“Deliberação democrática”, “obrigações internacionais”, “negociação política”, “Constituição”, “leis internas”, estamos pois a lidar com um democrata burguês.

 

O quarto credo da esquerda identitária é o respeito das identidades nacionais e por consequência também, de bom ou mau grado, dos Estados nacionais que defendem essas identidades nacionais.

Já que a esquerda identitária não pode atacar frontalmente o mito da Nação, ela é obrigada a separar e a opor, de maneira artificial, os bons nacionalismos progressistas do Sul aos maus nacionalismos (imperialistas, colonialistas, pós-colonialistas) do Norte.

É por exemplo o que diz muito explicitamente Houria Bouteldja, membro dos Indigènes de la République, numa intervenção num debate sobre identidade nacional (http://www.youtube.com/watch?v=FH2lD3Obe_Y ) ou na sua entrevista à revista Hérodote, e que encontramos também no livro de Sdri Khiari «Politique de la racaille»[4].

Não é portanto surpreendente que um identitário como Eric Fassin creia que a esquerda possa tomar a iniciativa no plano da imigração e, assim, obrigar a direita a recuar na sua campanha xenófoba, criar mesmo uma dinâmica eleitoral que fizesse progredir um limite de intolerância à xenofobia e ao racismo, “por que a esquerda não poderia por si mesma retomar a direcção no que diz respeito à imigração ? A evidência do problema da imigração poderia assim desfazer-se logo, sob o efeito de uma nova crença no limite de intolerância”, escreve ele no seu artigo.

Essa proposta mostra a incapacidade de Fassin e sobretudo da esquerda identitária de compreender a função do Estado nacional, e especificamente do estado republicano francês. A «xenofobia de Estado» que Fassin denuncia, com certeza com a maior sinceridade, é constitutiva do nascimento e do desenvolvimento da República Francesa, não só nas suas longínquas colónias mas também no seu território, não só perante os imigrantes das colónias mas também perante imigrantes europeus (dos alemães aos polacos, passando pelos italianos, os portugueses e os espanhóis) – e, se quiséssemos carregar mais um bocado, poderíamos até dizer, como Houria Bouteldja, na sua entrevista acima citada, que o Estado-nacional-republicano francês também esmagou os particularismos locais… Não serve para nada portanto invocar os manás da República (sobretudo os da Terceira, da Quarta e da Quinta!) para combater a xenofobia.

 

O quinto credo da esquerda identitária é a negação da luta de classes.

Uma identidade que não existe aos olhos da esquerda identitária é a identidade operária ou proletária (a não ser num remoto e vago passado, folclórico, mas que nem é digno do seu famoso “respeito”). Como o ódio aos trabalhadores (“operário-fobia”?) é um sentimento raramente expresso, na actualidade, de forma aberta, nos principais Media e que, não suscitaria guerra, compaixão dos pequenos burgueses e dos Media de esquerda (que só se interessam pelos problemas das “classes médias”), os identitários de esquerda negam ou ignoram a existência dos combates de classe, no passado mas sobretudo nos dias que correm. Esses combates só os podem assustar porque mobilizam (ou mobilizaram), não vítimas que mendigam “reparações” ou “indemnizações de despedimento”, desculpas (do Papa ou de um Primeiro Ministro ou Presidente da República qualquer) ou mais respeito das instituições burguesas, mas os homens e as mulheres que querem derrubar e aniquilar a ordem existente, não apenas consolar-se com algumas conquistas ou alguns direitos, sem tocar na dominação de classe da burguesia e do seu Estado. Esses combates assentam, não só em afrontamentos físicos, mas também em afrontamentos ideológicos que hoje em dia apavoram todos os intelectuais, inimigos do “sectarismo”, do “dogmatismo”, do “esquematismo”.

Assim se entendem os consensos moles a que chegam sempre os militantes de esquerda e de extrema esquerda quando agem juntos, esse menor denominador comum político que mais não é que a ideologia humanitária da esquerda identitária.

 

O sexto credo da esquerda identitária é um grande respeito pelas religiões, portanto uma incapacidade em afrontar o obscurantismo religioso e as tentativas das igrejas de ganharem mais poder na sociedade.

Esse aspecto não está referido na tribuna livre de Eric Fassin publicada no Libération, mas faz parte do património político dos identitários de esquerda, como testemunham as suas posições favoráveis à “laicidade aberta” e ao multiculturalismo dentro de todas as suas discussões sobre os “signos religiosos ostensivos”, o vestir o hijab e a burka, etc. Não se encontra nunca neles uma crítica radical à religião.

É assim que, no Le nouvel observateur de 6 de maio de 2010, Fassin consegue mais uma vez semear a confusão quando denuncia os ataques crápulas do ministro da Imigração: “Hortefeux pondera retirar a nacionalidade ao marido duma mulher que veste o niqab acusando-o de poligamia. Ora, quando Paul Bocuse se gabou das suas três mulheres (tem uma para o pequeno almoço, uma para o chá, outra para jantar”), quem se indignou? Há que ser francês de gema para poder ser polígamo?”

Partindo duma crítica justa aos delírios de Hortefeux a propósito da identidade nacional, Fassin chega a uma comparação absurda, ridícula, que coloca no mesmo patamar a poligamia islâmica, imposta pela charia, e reconhecida pelos tribunais dos Estados muçulmanos, e a pluralidade de parceiras dum homem, dentro dum quadro que não é regulamentado por nenhuma lei, fosse ela de inspiração religiosa ou laica. O facto de ter várias amantes pode assentar numa relação de dominação (financeira, se ele as sustenta!) ou outra, mas pelo menos essa relação não tem nenhum fundamento jurídico ou legal.

Estabelecendo essa comparação, Fassin justifica, sem dar por isso, a dominação masculina sobre as mulheres (aqui muçulmanas), dominação que a esquerda identitária pós-moderna tanto se esforça por denunciar com trémulos na voz.

Mas a ideologia identitária pós-moderna pouco faz de todas essas contradições quando consegue conquistar algum espaço mediático e político.

 

Terça-feira 7 de setembro de 2010, por Yves

Y.C.,
“Nem pátria nem fronteiras”,
7/09/2010

 

[1] Cantinas sociais mas cuja tradução à letra seria « restaurantes do coração ».
[2] De etnia cigana.
[3] “ Por outro lado, a experiência das discriminações não fica sem efeito nas vítimas: contribui para a sua constituição enquanto sujeitos. Nos anos 30, muitos se reconheceram como judeus sob o efeito do anti-semitismo”, escreve Eric Fassin, num artigo com o título espantoso: “Raça objectiva vs. (contra) raça subjetiva”. A referência ao anti-semitismo é frequentemente, para os identitários de esquerda, mas também para muitos intelectuais de todas sensibilidades, uma maneira de contrabandear a sua ideologia, bloqueando todo tipo de objeção eventual com a referência ao judeocídio.
[4] Tradução “Política da escumalha”